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Pernambuco perdeu força no planejamento? O alerta de Tânia Bacelar e o desafio de pensar 2050

Vista aérea de Boa Viagem e da área urbana do Recife usada para representar o planejamento territorial de Pernambuco
Vista aérea de Boa Viagem e da expansão urbana do Recife. Foto: Arne Müseler / arne-mueseler.com / CC BY-SA 3.0 DE. Imagem recortada e adaptada com título pelo Projetistas PE.

CÓDIGO DA MATÉRIA: PE064

Pernambuco perdeu força para planejar o próprio futuro? A pergunta orienta um vídeo publicado pelo Projetistas PE em 13 de outubro de 2026, no qual a economista Tânia Bacelar compara a trajetória pernambucana com experiências do Ceará e da Bahia. O ponto central não é montar um ranking entre estados, mas discutir o enfraquecimento de estruturas capazes de formular, coordenar e acompanhar estratégias que ultrapassem o calendário eleitoral.

No trecho, Tânia cita o Ceará 2050 e recupera dois exemplos pernambucanos de decisões estruturantes: a duplicação da BR-232 e a criação do Porto Digital. Em comum, são iniciativas que exigiram articulação entre governo, conhecimento técnico, investimento e continuidade. Elas ajudam a mostrar que planejamento público não é apenas produzir um documento: é transformar uma visão territorial em prioridades, projetos, orçamento, execução e monitoramento.

O alerta apresentado no vídeo

A fala de Tânia Bacelar deve ser lida como um diagnóstico sobre capacidade institucional. Governos continuam elaborando planos plurianuais, programas e obras, mas isso não substitui uma estratégia estadual capaz de conectar diferentes gestões e responder a perguntas de horizonte mais longo: que economia Pernambuco pretende construir, onde estarão os empregos qualificados, quais infraestruturas serão necessárias e como reduzir desigualdades entre a Região Metropolitana, a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão?

Assista ao vídeo do Projetistas PE que motivou esta análise.

Planejamento de longo prazo não é um PPA mais comprido

O Plano Plurianual organiza prioridades para um período de quatro anos. Ele é indispensável para a administração pública, mas permanece vinculado ao ciclo de um governo. Uma estratégia de longo prazo trabalha com horizonte maior, estabelece resultados de Estado e cria mecanismos para que sucessivos PPAs e orçamentos anuais contribuam para objetivos comuns.

O Governo do Ceará informa que seu Plano de Longo Prazo organiza um ciclo equivalente a seis PPAs e articula objetivos econômicos, sociais e ambientais. A plataforma Ceará 2050 foi concebida com participação do poder público, setor privado, academia, movimentos sociais e sociedade civil. O aspecto mais importante não é o número 2050, e sim a existência de governança, indicadores e ligação explícita entre a estratégia e os instrumentos orçamentários.

O que Pernambuco já demonstrou ser capaz de fazer

A referência ao Porto Digital é especialmente útil. Segundo a história institucional do parque, a iniciativa nasceu em 2000 como política pública de desenvolvimento da tecnologia da informação, articulando governo, universidades e empresas. O projeto criou uma entidade de gestão e combinou infraestrutura, formação de pessoas, atração de negócios e requalificação urbana. Mais de duas décadas depois, o ecossistema continua operando e se expandindo.

A BR-232 cumpre papel semelhante em outra dimensão: conecta a Região Metropolitana ao interior e influencia logística, circulação de pessoas, acesso a mercados e integração territorial. Esses exemplos não significam que todos os resultados tenham sido perfeitos. Eles mostram que Pernambuco já produziu projetos capazes de sobreviver a um mandato porque havia uma direção estratégica reconhecível e capacidade de coordenação.

Uma proposta para reconstruir essa capacidade

Em agosto de 2026, o projeto Pernambuco em Perspectiva apresentou uma proposta de Sistema Pernambucano de Planejamento Estratégico. O trabalho foi desenvolvido durante três anos, reuniu mais de 2,5 mil participantes e sistematizou 14 prioridades para o estado. Entre as sugestões divulgadas estão a criação de um conselho com representação empresarial, acadêmica e social e de uma estrutura executiva técnica dedicada ao planejamento.

A proposta tenta resolver um problema recorrente: planos podem perder força quando não existe instituição responsável por mantê-los atualizados, medir resultados, revisar premissas e conectar projetos ao orçamento. Um sistema permanente não elimina o debate político. Ao contrário, oferece dados, cenários e critérios para que as escolhas públicas sejam mais transparentes.

Por que isso importa para engenharia e indústria

Para quem trabalha com engenharia, planejamento de longo prazo não é uma abstração. Ele influencia a existência de uma carteira previsível de projetos e a preparação das cadeias produtivas. Decisões sobre portos, rodovias, ferrovias, saneamento, energia, gás, mobilidade, habitação e adaptação climática exigem estudos, licenciamento, projetos básicos e executivos, financiamento, desapropriações, obras, operação e manutenção.

Sem continuidade, estudos vencem, equipes se dispersam, prioridades mudam antes de amadurecer e investimentos aparecem de forma isolada. Com uma estratégia bem governada, o estado pode:

  • organizar uma carteira de projetos tecnicamente preparada, em vez de iniciar tudo do zero a cada oportunidade de financiamento;
  • antecipar demandas de formação profissional e qualificação de fornecedores;
  • coordenar infraestrutura logística, energética, hídrica e digital;
  • definir indicadores públicos para acompanhar prazo, custo, entrega e impacto;
  • reduzir conflitos entre projetos setoriais e políticas territoriais;
  • dar maior previsibilidade a municípios, empresas e investidores.

Planejar não é prever tudo

Uma estratégia de longo prazo não pode ser uma lista rígida de obras nem uma promessa de que o futuro será exatamente como previsto. Mudanças climáticas, novas tecnologias, crises fiscais e transformações geopolíticas alteram cenários. Por isso, um bom sistema de planejamento precisa admitir revisões periódicas, comparar alternativas e tornar públicas as razões de cada mudança.

Também não basta lançar um plano com metas ambiciosas. Sem responsáveis definidos, indicadores verificáveis, fontes de financiamento e integração com o orçamento, o documento corre o risco de se tornar apenas uma peça de comunicação. A qualidade aparece quando estratégia e execução caminham juntas.

O desafio pernambucano

O alerta de Tânia Bacelar recoloca uma escolha importante: Pernambuco pode continuar tratando cada grande investimento como episódio isolado ou reconstruir uma visão capaz de ligar território, infraestrutura, conhecimento, indústria e inclusão social. O estado possui universidades, centros de pesquisa, empresas, organizações sociais e experiência acumulada para isso.

O ponto decisivo é transformar essa capacidade em método permanente. Planejamento de longo prazo não substitui a gestão cotidiana, mas oferece direção para que decisões de hoje não se anulem amanhã. Para Pernambuco, pensar 2050 significa decidir desde agora quais projetos precisam ser estudados, quais competências devem ser formadas e quais instituições garantirão continuidade ao que funciona.

Fontes consultadas: vídeo original do Projetistas PE; Governo do Ceará - Ceará 2050; Porto Digital - história institucional; Revista Algomais - Pernambuco em Perspectiva; Ceplan - artigo de Tânia Bacelar. Consulta realizada em 13 de outubro de 2026.

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