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Do discurso à indústria real: o que Pernambuco produz e como cobrar resultados

CÓDIGO DA MATÉRIA: PE065

Conteúdo informativo e apartidário. O levantamento registra propostas públicas e resultados oficiais; não representa apoio eleitoral.

Panorama industrial de Pernambuco com porto, refinaria, energia e o título Do discurso à indústria real
Do discurso à indústria real: a PE065 mede a estrutura produtiva e organiza uma agenda pública de acompanhamento.

Quais propostas realmente podem mudar a estrutura produtiva de Pernambuco, quem pode executá-las e como separar discurso de entrega? Esta nova investigação nasceu desses questionamentos. Ela cruza compromissos públicos com dados de setores, empresas, empregos, exportações, qualificação e infraestrutura para mostrar o tamanho real do desafio industrial.

As perguntas centrais: Pernambuco produz o quê, em quais setores e com que concentração? Onde estão os empregos e as empresas? Quais gargalos aparecem repetidamente nas propostas? E quais indicadores permitem cobrar resultados entre 2027 e 2030?

Quem recebeu mandato para responder às perguntas

Pernambuco elegeu Humberto Costa (PT), com 2.531.389 votos (27,19%), e Marília Arraes (PDT), com 2.325.127 votos (24,97%), para as duas vagas do Senado. Segundo a Agência Senado, os mandatos começam em 1º de fevereiro de 2027 e terminam em 31 de janeiro de 2035.

Na disputa para a Câmara dos Deputados, a lista oficial da Câmara mostra que Gilson Machado (PODE) foi eleito. Entre os quatro candidatos a deputado federal auditados no levantamento eleitoral que originou esta investigação, ele foi o único que apareceu na relação oficial de eleitos. Isso não invalida as demais propostas: elas continuam úteis para identificar prioridades defendidas durante a campanha, mas a responsabilidade institucional direta recai principalmente sobre os eleitos.

Gráfico com votos e percentuais dos principais candidatos ao Senado por Pernambuco em 2026
Resultado do Senado em Pernambuco: duas vagas, eleitas por votação majoritária em 4 de outubro de 2026.

O resultado completo mostra ainda Mendonça Filho (PL) com 18,57%, Eduardo da Fonte (PP) com 13,84%, Carlos Sant'Anna (NOVO) com 7,50%, Túlio Gadêlha (PSD) com 7,22% e Paulo Rubem Santiago (REDE) com 0,37%. A apuração registrou 9.310.957 votos válidos para o cargo, além de 1.124.608 votos em branco, 1.374.907 nulos e 1.311.753 abstenções, conforme a compilação da apuração do TSE.

O tamanho do desafio industrial

A indústria pernambucana tinha PIB de R$ 52,6 bilhões em 2023, equivalente a 22,5% da economia estadual e 2,2% do PIB industrial brasileiro. Em 2025, o estado reunia 22.078 estabelecimentos industriais e 364.099 trabalhadores, segundo o Perfil da Indústria nos Estados, da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Painel com PIB industrial, participação econômica, empresas, empregos, salário e tarifa de energia em Pernambuco
Indicadores de escala da indústria pernambucana; os anos de referência são mostrados em cada cartão.
+10,9%produção industrial acumulada até junho de 2026, ante 1,1% no Brasil, segundo apresentação da FIEPE.
R$ 313 biPIB estadual estimado em apresentação da FIEPE em setembro de 2026.
368,7 milempregos ligados à indústria na base apresentada pela FIEPE em 2026.

Os números da FIEPE e da CNI não devem ser somados nem tratados como se fossem da mesma fotografia estatística. Eles usam datas e recortes diferentes. O valor da comparação está em mostrar duas dimensões: a base estrutural consolidada pela CNI e o desempenho mais recente apresentado pela federação estadual.

Que indústria é essa?

Pernambuco não depende de um único ramo. Construção, alimentos, serviços industriais de utilidade pública, derivados de petróleo e biocombustíveis e veículos formam o núcleo mais pesado da estrutura produtiva. Juntos, os cinco setores representam 67,2% da indústria estadual.

Gráfico comparativo da composição setorial da indústria de Pernambuco, Nordeste e Brasil
Comparação dos dez maiores setores de Pernambuco com as participações do Nordeste e do Brasil no Valor da Transformação Industrial.

O perfil evidencia diferenças importantes. Derivados de petróleo e biocombustíveis representam 13,2% da indústria pernambucana, contra 6,3% no Nordeste e 7,4% no Brasil. Veículos respondem por 9,3% em Pernambuco, muito acima das participações regional e nacional. Em sentido oposto, utilidades têm peso menor no estado do que no conjunto nordestino.

Infográfico mostrando que cinco setores concentram 67,2 por cento da indústria de Pernambuco
Os cinco maiores setores concentram 67,2% da estrutura industrial do estado.

Entre 2013 e 2023, derivados de petróleo e biocombustíveis foram a atividade que mais ganhou participação na indústria pernambucana, com avanço de 13 pontos percentuais, segundo a CNI.

Empresas numerosas, emprego concentrado

As microempresas representam 76,5% dos estabelecimentos industriais, mas respondem por 10,9% do emprego. As grandes indústrias são apenas 0,8% dos estabelecimentos e concentram 42,2% dos postos. A política industrial, portanto, precisa lidar simultaneamente com a produtividade e o financiamento dos pequenos negócios e com a capacidade de reter grandes projetos intensivos em capital e emprego.

Comparação entre porte dos estabelecimentos industriais e participação no emprego em Pernambuco
Participação por porte no total de estabelecimentos e no emprego industrial de Pernambuco em 2025.

Exportações: indústria e veículos puxam a pauta

A indústria pernambucana exportou US$ 2,134 bilhões em 2025. Produtos industrializados responderam por 84% de tudo o que o estado exportou, e os manufaturados representaram 77,5% do total. O setor automotivo, sozinho, respondeu por 46,11% das exportações industriais.

Infográfico com valores e participações das exportações industriais e de veículos de Pernambuco
A indústria domina a pauta exportadora estadual, com forte peso dos veículos automotores.

Esse perfil reforça a centralidade de Suape, das rodovias, da conectividade portuária e da Transnordestina. Não basta produzir: competitividade industrial depende de prazo de entrega, custo de transporte, integração ferroviária e previsibilidade nos terminais.

O gargalo humano: 393,4 mil qualificações

O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027 estima que Pernambuco precisará qualificar 393,4 mil profissionais: 64,4 mil em formação inicial e 329,1 mil em treinamento e desenvolvimento de pessoas que já estão no mercado. Logística e transporte lideram a demanda, seguidos por construção, operação industrial, metalmecânica e manutenção e reparação.

Gráfico da demanda de qualificação profissional em Pernambuco até 2027 por área
Demanda estimada pelo SENAI-PE para formação inicial e atualização profissional entre 2025 e 2027.

Esse é um teste concreto para as propostas de qualificação. Uma política séria precisa publicar número de vagas, conclusão dos cursos, inserção no trabalho, distribuição territorial e aderência às ocupações efetivamente demandadas. Contar matrículas sem medir conclusão e emprego é insuficiente.

De onde partiram os questionamentos

Um levantamento eleitoral anterior do Projetistas PE analisou oito candidaturas e deu origem às perguntas aprofundadas nesta nova matéria. O quadro abaixo resume os temas explicitamente localizados nas fontes consultadas. A marcação não mede qualidade, custo, viabilidade ou prioridade; indica apenas que o assunto apareceu de forma verificável.

Matriz dos temas que originaram os questionamentos sobre logística, energia, crédito, qualificação, inovação e interiorização
Presença temática nas fontes auditadas: ponto de partida da investigação, sem pontuação ou ranking.
Nome e cargo disputadoPrincipais compromissos industriais verificadosSituação após o 1º turno
Humberto Costa (PT)
Senado
Comitê permanente para o trecho Salgueiro-Suape; projetos de infraestrutura; energias renováveis, hidrogênio verde e biocombustíveis.Eleito
Marília Arraes (PDT)
Senado
Conclusão do ramal Salgueiro-Suape; expansão de energia solar, eólica e gás natural; fortalecimento da Sudene.Eleita
Mendonça Filho (PL)
Senado
Competitividade na transição tributária; maior presença do BNDES e do FNE; formação ligada a IA, automação e indústria 4.0.Não eleito
Paulo Rubem Santiago (REDE)
Senado
Crédito produtivo de longo prazo; aproximação entre empresas, universidades e pesquisa; recuperação ferroviária.Não eleito
Gilson Machado (PODE)
Câmara
Zonas francas para os polos de Confecções e do Araripe; agregação de valor; expansão ferroviária ligando o Araripe a Salgueiro.Eleito
João Pedro Cavalcanti (NOVO)
Câmara
Destravar Suape; atrair investimentos e empregos formais para o interior; simplificar acesso de pequenos negócios ao crédito.Não aparece na lista oficial de eleitos
Miguel Coelho (UNIÃO)
Câmara
Qualificação de mulheres; ranking municipal de competitividade; Transnordestina, energia, infraestrutura urbana e conectividade.Não aparece na lista oficial de eleitos
Renan Bihum (NOVO)
Câmara
Porto seco na Transnordestina; fundo de diversificação; estradas, energia e conectividade digital no Sertão do Araripe.Não aparece na lista oficial de eleitos

Transnordestina: o ponto de maior convergência

A ligação ferroviária Salgueiro-Suape foi o tema mais recorrente. Humberto Costa e Marília Arraes a colocaram entre as prioridades; Paulo Rubem associou competitividade à recuperação ferroviária; Gilson Machado e Renan Bihum defenderam conexões capazes de integrar o Araripe; Miguel Coelho também incluiu a ferrovia em sua agenda.

Em julho de 2026, a Sudene apresentou na FIEPE um estudo que reforçou a viabilidade econômica e social do trecho. O contexto é relevante porque o Tribunal de Contas da União havia condicionado novos compromissos financeiros e repasses à apresentação de estudos de viabilidade. Para acompanhamento público, a promessa precisa ser desdobrada em quatro entregas: projeto, governança, fonte de financiamento e cronograma.

Crédito, energia e interiorização

O Banco do Nordeste informou previsão de R$ 7,28 bilhões do FNE para Pernambuco em 2027, dos quais R$ 1,7 bilhão para infraestrutura e R$ 1,35 bilhão para a indústria. O debate, portanto, não deve se limitar à existência do fundo: importa saber quanto chega a micro, pequenas, médias e grandes empresas, em quais regiões e para quais cadeias produtivas.

Na energia, a agenda vai de gás natural a renováveis, hidrogênio e biocombustíveis. A CNI aponta tarifa média de R$ 891,40 por MWh para consumidores industriais cativos em 2025, 3,5% abaixo da média nacional. Custo, segurança de suprimento, transmissão e conexão de novos empreendimentos precisam ser acompanhados em conjunto.

No interior, Araripe, Agreste e Sertão aparecem associados a logística, polos produtivos, água, energia e conectividade. O polo gesseiro ilustra a escala do desafio: segundo a FIEPE, responde por cerca de 90% da produção nacional de gipsita, reúne aproximadamente 561 empresas e movimenta mais de 70 mil empregos diretos e indiretos.

Linha do tempo de eventos, debates e resultado eleitoral relacionados à indústria pernambucana em 2026
Da defesa da Transnordestina ao início previsto dos mandatos no Senado.

Uma agenda objetiva de cobrança

Propostas eleitorais costumam misturar objetivos, instrumentos e resultados esperados. Para que o acompanhamento não dependa apenas de discurso, o Projetistas PE organizou seis frentes verificáveis.

Agenda de cobrança com seis eixos para indústria e infraestrutura em Pernambuco entre 2027 e 2030
Seis eixos para transformar promessas em entregas acompanháveis por responsável, orçamento, prazo e indicador.
  1. Transnordestina: publicar etapas, licenças, governança, recursos contratados e avanço físico.
  2. Crédito produtivo: detalhar desembolsos por porte, cadeia, município e finalidade.
  3. Qualificação: medir conclusão, certificação e inserção no mercado, não apenas matrículas.
  4. Energia e transição: acompanhar capacidade, conexão, tarifa e investimentos industriais associados.
  5. Interiorização: registrar empregos, infraestrutura e novos projetos fora da Região Metropolitana.
  6. Competitividade: monitorar logística, licenciamento, produtividade, exportações e participação da indústria no PIB.
Conclusão: os dados confirmam que não existe uma única política industrial capaz de resolver tudo. Pernambuco precisa combinar infraestrutura, energia, formação, crédito e desenvolvimento regional. O teste das propostas começa quando cada promessa recebe responsável, projeto, orçamento, prazo e indicador público.

Fontes e metodologia

A apuração eleitoral anterior é apenas o ponto de partida e não representa a lista completa de concorrentes. A PE065 é uma matéria independente, dedicada a testar os temas levantados contra a estrutura econômica real de Pernambuco. Nome, partido, cargo, situação eleitoral e propostas foram conferidos em fontes oficiais, plataformas de campanha identificadas e coberturas de sabatinas. Indicadores econômicos foram mantidos com seus respectivos anos de referência para evitar comparação indevida.

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