Do discurso à indústria real: o que Pernambuco produz e como cobrar resultados
CÓDIGO DA MATÉRIA: PE065
Conteúdo informativo e apartidário. O levantamento registra propostas públicas e resultados oficiais; não representa apoio eleitoral.
Quais propostas realmente podem mudar a estrutura produtiva de Pernambuco, quem pode executá-las e como separar discurso de entrega? Esta nova investigação nasceu desses questionamentos. Ela cruza compromissos públicos com dados de setores, empresas, empregos, exportações, qualificação e infraestrutura para mostrar o tamanho real do desafio industrial.
Quem recebeu mandato para responder às perguntas
Pernambuco elegeu Humberto Costa (PT), com 2.531.389 votos (27,19%), e Marília Arraes (PDT), com 2.325.127 votos (24,97%), para as duas vagas do Senado. Segundo a Agência Senado, os mandatos começam em 1º de fevereiro de 2027 e terminam em 31 de janeiro de 2035.
Na disputa para a Câmara dos Deputados, a lista oficial da Câmara mostra que Gilson Machado (PODE) foi eleito. Entre os quatro candidatos a deputado federal auditados no levantamento eleitoral que originou esta investigação, ele foi o único que apareceu na relação oficial de eleitos. Isso não invalida as demais propostas: elas continuam úteis para identificar prioridades defendidas durante a campanha, mas a responsabilidade institucional direta recai principalmente sobre os eleitos.
O resultado completo mostra ainda Mendonça Filho (PL) com 18,57%, Eduardo da Fonte (PP) com 13,84%, Carlos Sant'Anna (NOVO) com 7,50%, Túlio Gadêlha (PSD) com 7,22% e Paulo Rubem Santiago (REDE) com 0,37%. A apuração registrou 9.310.957 votos válidos para o cargo, além de 1.124.608 votos em branco, 1.374.907 nulos e 1.311.753 abstenções, conforme a compilação da apuração do TSE.
O tamanho do desafio industrial
A indústria pernambucana tinha PIB de R$ 52,6 bilhões em 2023, equivalente a 22,5% da economia estadual e 2,2% do PIB industrial brasileiro. Em 2025, o estado reunia 22.078 estabelecimentos industriais e 364.099 trabalhadores, segundo o Perfil da Indústria nos Estados, da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Os números da FIEPE e da CNI não devem ser somados nem tratados como se fossem da mesma fotografia estatística. Eles usam datas e recortes diferentes. O valor da comparação está em mostrar duas dimensões: a base estrutural consolidada pela CNI e o desempenho mais recente apresentado pela federação estadual.
Que indústria é essa?
Pernambuco não depende de um único ramo. Construção, alimentos, serviços industriais de utilidade pública, derivados de petróleo e biocombustíveis e veículos formam o núcleo mais pesado da estrutura produtiva. Juntos, os cinco setores representam 67,2% da indústria estadual.
O perfil evidencia diferenças importantes. Derivados de petróleo e biocombustíveis representam 13,2% da indústria pernambucana, contra 6,3% no Nordeste e 7,4% no Brasil. Veículos respondem por 9,3% em Pernambuco, muito acima das participações regional e nacional. Em sentido oposto, utilidades têm peso menor no estado do que no conjunto nordestino.
Entre 2013 e 2023, derivados de petróleo e biocombustíveis foram a atividade que mais ganhou participação na indústria pernambucana, com avanço de 13 pontos percentuais, segundo a CNI.
Empresas numerosas, emprego concentrado
As microempresas representam 76,5% dos estabelecimentos industriais, mas respondem por 10,9% do emprego. As grandes indústrias são apenas 0,8% dos estabelecimentos e concentram 42,2% dos postos. A política industrial, portanto, precisa lidar simultaneamente com a produtividade e o financiamento dos pequenos negócios e com a capacidade de reter grandes projetos intensivos em capital e emprego.
Exportações: indústria e veículos puxam a pauta
A indústria pernambucana exportou US$ 2,134 bilhões em 2025. Produtos industrializados responderam por 84% de tudo o que o estado exportou, e os manufaturados representaram 77,5% do total. O setor automotivo, sozinho, respondeu por 46,11% das exportações industriais.
Esse perfil reforça a centralidade de Suape, das rodovias, da conectividade portuária e da Transnordestina. Não basta produzir: competitividade industrial depende de prazo de entrega, custo de transporte, integração ferroviária e previsibilidade nos terminais.
O gargalo humano: 393,4 mil qualificações
O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027 estima que Pernambuco precisará qualificar 393,4 mil profissionais: 64,4 mil em formação inicial e 329,1 mil em treinamento e desenvolvimento de pessoas que já estão no mercado. Logística e transporte lideram a demanda, seguidos por construção, operação industrial, metalmecânica e manutenção e reparação.
Esse é um teste concreto para as propostas de qualificação. Uma política séria precisa publicar número de vagas, conclusão dos cursos, inserção no trabalho, distribuição territorial e aderência às ocupações efetivamente demandadas. Contar matrículas sem medir conclusão e emprego é insuficiente.
De onde partiram os questionamentos
Um levantamento eleitoral anterior do Projetistas PE analisou oito candidaturas e deu origem às perguntas aprofundadas nesta nova matéria. O quadro abaixo resume os temas explicitamente localizados nas fontes consultadas. A marcação não mede qualidade, custo, viabilidade ou prioridade; indica apenas que o assunto apareceu de forma verificável.
| Nome e cargo disputado | Principais compromissos industriais verificados | Situação após o 1º turno |
|---|---|---|
| Humberto Costa (PT) Senado | Comitê permanente para o trecho Salgueiro-Suape; projetos de infraestrutura; energias renováveis, hidrogênio verde e biocombustíveis. | Eleito |
| Marília Arraes (PDT) Senado | Conclusão do ramal Salgueiro-Suape; expansão de energia solar, eólica e gás natural; fortalecimento da Sudene. | Eleita |
| Mendonça Filho (PL) Senado | Competitividade na transição tributária; maior presença do BNDES e do FNE; formação ligada a IA, automação e indústria 4.0. | Não eleito |
| Paulo Rubem Santiago (REDE) Senado | Crédito produtivo de longo prazo; aproximação entre empresas, universidades e pesquisa; recuperação ferroviária. | Não eleito |
| Gilson Machado (PODE) Câmara | Zonas francas para os polos de Confecções e do Araripe; agregação de valor; expansão ferroviária ligando o Araripe a Salgueiro. | Eleito |
| João Pedro Cavalcanti (NOVO) Câmara | Destravar Suape; atrair investimentos e empregos formais para o interior; simplificar acesso de pequenos negócios ao crédito. | Não aparece na lista oficial de eleitos |
| Miguel Coelho (UNIÃO) Câmara | Qualificação de mulheres; ranking municipal de competitividade; Transnordestina, energia, infraestrutura urbana e conectividade. | Não aparece na lista oficial de eleitos |
| Renan Bihum (NOVO) Câmara | Porto seco na Transnordestina; fundo de diversificação; estradas, energia e conectividade digital no Sertão do Araripe. | Não aparece na lista oficial de eleitos |
Transnordestina: o ponto de maior convergência
A ligação ferroviária Salgueiro-Suape foi o tema mais recorrente. Humberto Costa e Marília Arraes a colocaram entre as prioridades; Paulo Rubem associou competitividade à recuperação ferroviária; Gilson Machado e Renan Bihum defenderam conexões capazes de integrar o Araripe; Miguel Coelho também incluiu a ferrovia em sua agenda.
Em julho de 2026, a Sudene apresentou na FIEPE um estudo que reforçou a viabilidade econômica e social do trecho. O contexto é relevante porque o Tribunal de Contas da União havia condicionado novos compromissos financeiros e repasses à apresentação de estudos de viabilidade. Para acompanhamento público, a promessa precisa ser desdobrada em quatro entregas: projeto, governança, fonte de financiamento e cronograma.
Crédito, energia e interiorização
O Banco do Nordeste informou previsão de R$ 7,28 bilhões do FNE para Pernambuco em 2027, dos quais R$ 1,7 bilhão para infraestrutura e R$ 1,35 bilhão para a indústria. O debate, portanto, não deve se limitar à existência do fundo: importa saber quanto chega a micro, pequenas, médias e grandes empresas, em quais regiões e para quais cadeias produtivas.
Na energia, a agenda vai de gás natural a renováveis, hidrogênio e biocombustíveis. A CNI aponta tarifa média de R$ 891,40 por MWh para consumidores industriais cativos em 2025, 3,5% abaixo da média nacional. Custo, segurança de suprimento, transmissão e conexão de novos empreendimentos precisam ser acompanhados em conjunto.
No interior, Araripe, Agreste e Sertão aparecem associados a logística, polos produtivos, água, energia e conectividade. O polo gesseiro ilustra a escala do desafio: segundo a FIEPE, responde por cerca de 90% da produção nacional de gipsita, reúne aproximadamente 561 empresas e movimenta mais de 70 mil empregos diretos e indiretos.
Uma agenda objetiva de cobrança
Propostas eleitorais costumam misturar objetivos, instrumentos e resultados esperados. Para que o acompanhamento não dependa apenas de discurso, o Projetistas PE organizou seis frentes verificáveis.
- Transnordestina: publicar etapas, licenças, governança, recursos contratados e avanço físico.
- Crédito produtivo: detalhar desembolsos por porte, cadeia, município e finalidade.
- Qualificação: medir conclusão, certificação e inserção no mercado, não apenas matrículas.
- Energia e transição: acompanhar capacidade, conexão, tarifa e investimentos industriais associados.
- Interiorização: registrar empregos, infraestrutura e novos projetos fora da Região Metropolitana.
- Competitividade: monitorar logística, licenciamento, produtividade, exportações e participação da indústria no PIB.
Fontes e metodologia
A apuração eleitoral anterior é apenas o ponto de partida e não representa a lista completa de concorrentes. A PE065 é uma matéria independente, dedicada a testar os temas levantados contra a estrutura econômica real de Pernambuco. Nome, partido, cargo, situação eleitoral e propostas foram conferidos em fontes oficiais, plataformas de campanha identificadas e coberturas de sabatinas. Indicadores econômicos foram mantidos com seus respectivos anos de referência para evitar comparação indevida.
- Agência Senado: eleitos e votos em Pernambuco
- Câmara dos Deputados: eleitos por estado em 2026
- Apuração do Senado em Pernambuco, com dados do TSE
- CNI: Perfil da Indústria de Pernambuco
- SENAI-PE: Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027
- FIEPE: Diálogo da Indústria com candidatos ao Senado
- FIEPE: estudo da Sudene sobre Salgueiro-Suape
- FIEPE: panorama econômico e industrial apresentado em 2026
- FIEPE: escala e demandas do polo gesseiro
- Banco do Nordeste: previsão do FNE para Pernambuco em 2027
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